terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A primeira vez

gloves - imagem da web


Frio. Ela saltou do trem agasalhada com casaco e gorro, mas foram as luvas a me chamar a atenção. Pareciam manter-me à distância. Dobrei o corpo, na mesura mais formal possível. Ela sorriu. No gesto de liberar a mão direita para o cumprimento, despiu-se deixando-me canhestro e nu. Diante dos longos dedos pálidos, deixei cair o livro e a pose, restou-me a timidez sombria e enluvada dos canhotos.

escrito em 04-01-2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

a caminho

sarolta-ban-surreal-24


Anda devagar, certo de que o caminho acaba adiante. Segue com receio das dores e dos percalços que ainda impedirão o encontro. Tem medo de descumprir o encargo, de chegar aos trancos se arrastando cego em plena luz do dia, confundindo a Lua com a mãe distante, receio de perder alguma parte do que amealhou na alma por confuso e fraco. Seu consolo é o descanso, esquecer todas as coisas, deixar pra sempre a atenção que oprime e impede o sono, entregar o fardo, enfim repousar na única benção que o livrará do tempo. Mente vazia, silêncio absoluto.


escrito em 28-12-2010
21h16' hv

domingo, 2 de janeiro de 2011

sem saída


moto contínuo


Reclamava que ela falava demais, repetindo as mesmas coisas. Não percebia que, há anos, as questões eram as mesmas às quais ele jamais havia respondido.


escrito em 27-12-2010

uma conexão eficaz



Alguns acidentes cerebrais e o escritor não conseguia articular palavras nem movimentos. Parecia estar à deriva da vida, entretanto sua mente não parou de elaborar histórias cada vez mais ricas e abundantes. Neste tempo, sua antiga governanta, senhora boa, mas iletrada, passou a escrever textos brilhantes, contos de raro valor. Durante meses, a concentração de energia no cérebro do homem, permitiu-lhe desenvolver um alto potencial telepático. Quando repousava, bastava segurar as mãos da senhora para plantar, naquela mente rude, os frutos que elaborava com primor.


escrito em 29-12-2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O cheiro da manipulação

véus - imagem da Internet


Ela borbulha inveja do mundo. No entanto, sorriso nos lábios, espalha elogios por onde passa. Sob as palavras floridas se escondem os vermes que revolvem as raizes de sua alma putrefata. Quem percebe se abana, se afasta, alguns chegam a persignar-se. Fica o miasma.


escrito em 26-12-2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

isolamento

dinosauro embrião


Sonhava com a cauda que batia rápida e forte, afastando pra longe tudo e todos. A casca grossa que o protegia, ameaçava romper-se a cada instante e sabia que seria um esforço colossal construir fora, a solidão desejada. Diziam que prisão sufocava, mas ele sabia que não. Era assim, em segurança máxima, que sentia liberdade absoluta.



escrito em 27-12-2010

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O nariz



Amanda fez plástica, análise cinco vezes por semana e perdeu-se. Não sabendo mais quem era, comprou máquina digital e se fotografou todos os dias. Ao se ver desconhecida, rasgou as fotos, quebrou a máquina e decidiu voltar ao consultório. Encontrou-se sob o divã, encolhida e agarrada ao antigo nariz adunco, centro e razão de toda a identidade abandonada.


escrito em 20-12-2010