terça-feira, 12 de novembro de 2019

sábado, 9 de novembro de 2019

CARTAS

2 - CARTA DE AMOR

Acordei hoje, com a sua lembrança bem viva. Não apenas, pelo fato de estar desde há uns dias me lembrando de seu aniversário, mas porque tive a sensação de ter passado a noite em sua companhia. 
Assim como na vida, os sonhos são breves, mas podem deixar a impressão de que duram todo o tempo.
Assim é a sua existência na minha.
O sonho me trouxe, como sempre, (tenho um inconsciente camarada!) situações agradáveis e a certezafísica” de que o meu prazer fez um forte vínculo com o seu ser. Não pense que estou parada no tempo e que posso me reportar a você, com o mesmo vínculo amoroso. Isto não ocorre porque entendo a vida como uma editora que, não mantém títulos antigos que são valorizados pela qualidade, mas os atualiza, reedita e lança outros novos.
Acontece que, na minha editora, você é um livro de valor, como um clássico, pois aprendi muito com esta leitura, o que me trouxe um raro prazer.
Na minha alma, o amor tem uma infinidade de possibilidades e encadernações.
Concordo com Thiago de Mello no seu "Estatutos do Homem" quando diz que "a pior dor é não poder dar amor a quem se ama." Pois o amor se rejubila na doação e no prazer do outro. A benevolência que temos, ao tratar com carinho e atenção a quem amamos está na própria raiz da palavra, independente de seu uso corriqueiro. Benevolente é a atitude constante em qualquer tipo de relacionamento no qual exista a intenção e o sentimento de colaborar para a alegria e a realização do outro.
Queria muito e, como queria, ser benevolente com você. Aliás, sou, pois isto independe do Nós. Fica sim, prejudicada, neste querer bem, a amplitude em atos e a satisfação egoísta de ver a felicidade do outro, assim como o sentir menor nossos limites e impotência em relação ao querer alheio. 
Mas, parece que continuo a aprender com você e com a dificuldade quanto à reedição traduzida, revista e, quiçá, aumentada desta benevolência que espero, um dia, não seja via de mão única.
Hoje, especialmente, embora o tempo seja uma ficção, você completa seus cinqüenta anos. 
Emparelhamos-nos, por pouco tempo, vivendo a mesma década.
Espero que, como já disse num recado eletrônico, esta maior idade te seja tão rica e benéfica quanto tem sido para mim. O despojar-se de expectativas, conflitos internos, autocobranças e velhos temores, podem trazer um tipo de liberdade tão interna e profunda que nada abala e, enfim, podemos Ser nossas verdades independentes de censuras ou aprovações externas.
Esta hoje, minha querida, é a manifestação mais verdadeira de minha benevolência por você.  


Em tempo, descobri que hoje comemoram o dia do beijo. Não é interessante? Muitos deles para você neste seu dia.

CARTAS E MENSAGENS

1 - Aos Loucos Varridos


Desde muito cedo percebi que me encaixava na classe dos ET’s. Talvez, por isso mesmo, minha aparência e comportamento externo fossem tão certinhos, discretos e enquadrados. Defesa pura.  As poucas vezes em que ousei sair deste modelo fui etiquetada com rótulos nada aceitáveis para a época. As palavras, as idéias e a forma de viver desde muito cedo ameaçaram o núcleo familiar e social e em troca, muitas dores foram vividas na calada.
Com a maturidade e a independência, descobri que era interpretada erroneamente até por aqueles que viam algo de heróico e pioneiro em minha vida. Nada sabiam do que se passava nos bastidores de minha alma recolhida.
Talvez por isto tudo, os chamados loucos sempre contaram com meu interesse, simpatia e defesa irada. A injustiça do julgamento a priori, a segregação sofrida, os diagnósticos apressados e o sempre desamor permeando as vidas de pessoas incríveis como Camille Claudel, Van Gogh, Santos Dumont, e outras tantas almas singulares que não trilharam os caminhos esperados pela maioria.
Quase sempre estes seres foram cercados e sugados por familiares que tinham os “pés no chão” e que se valeram das genialidades do parente que foi rotulado como louco!
Hoje se fala de inclusão de minorias: dos negros, dos homossexuais e afins, dos isso e aquilo, mas não consigo ver ninguém que se chegue a alguém que desafie as convenções e que seja chamado Louco! Ah! Mentira! Existe sim, uma hipótese: se este louco fizer gênero e tiver dinheiro, pois então será ícone e não só será aceito como imitado e endeusado! E, se for bem de perto, se poderá perceber que é só fachada, que lá no fundo existe o marketing que visa dinheiro e sucesso material. O pobre coitado que ousa desobedecer os padrões e ser diferente porque criativo, porque ele mesmo em sua individualidade ímpar, terá que ser banido, impedido, medicado e drogado através das químicas permitidas e manipuladoras. Então, terá seu diagnóstico estampado para sempre na testa e na alma: desequilibrado, doente mental, maluco e junto, virá o desamor de quem o deseja bonzinho, obediente. Manipulável!
Agora sim ele está melhor! Enquadrou-se, sua criatividade está morta para sempre e a dor, será sempre a mesma, a do abandono, pois esta jamais será compreendida e alcançada pelos medíocres.
Neste compasso segue o coreto dos que afirmam que é para que não sofram, por isto medicam, dão choques elétricos e confinam. São mantidos à distância da sociedade porque envergonham, não enchem de vaidade pais e mães, irmãos, tios e primos. E ninguém os aceita, não são ouvidos, não são tocados, não são amados.
Causa-me desespero, impotência e um profundo desprezo perceber a cautela doentia com que o irmão de Camille, aquele Paul que se disse iluminado, mas que destilava uma manipulação interesseira, manter confinada a irmã que jamais foi louca, apodrecendo num asilo, sem responder suas cartas, pois certamente seu comportamento imprevisível e inaceitável à época, poderia por em risco sua carreira diplomática e de poeta!
Até que Camille morreu e começou a ser considerada uma escultora genial e então o abjeto passou a mencioná-la com o orgulho perfeito para somar ao seu nome. Então se tornou o que sempre foi – apenas o irmão de Camille Claudel- a artista cuja genialidade superou, e muito,
a criação medíocre de Paul.
É absurdo que, em nossos dias, este comportamento se repita e a ignorância continue.
Posso estar completamente equivocada, mas não creio. Os rotulados doentes mentais sofrem sim, mas antes que seus delírios doam pela rejeição e incompreensão, antes que morram pelo desamor e se suicidem pelo desespero de viver à margem da vida, ajude-os a canalizar seus “delírios” para a expressão original. Dêem-lhes ouvidos e instrumentos e teremos gênios criativos e pessoas únicas que poderão amedrontar, mas que serão os arautos das verdades que não temos coragem de ver!

Por Camille e para Ana Paula que saiu de um palco estreito demais, para brilhar em liberdade e plenitude em algum lugar melhor.
 

Em 26-11-2008 

ANGUSTIA


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