sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O trem

jesien - autor nołnejm


Identificava-se com livros. Amava ler e escrever tanto quanto gostava de conhecer lugares. Sempre que viajava dividia seu tempo entre as histórias e a paisagem. Doente e cansado tomou o trem de sempre, mas desta vez seu caminho não teria rumo nem parada. Iria até o fim, para o sempre. A vida, ele foi largando sobre os trilhos e o outono o amarelou e cobriu até sumir-se na fumaça. Sem apito, sem bagagem, sem volta.

escrito em 17-11-2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Atavismo

Hansel & Gretel


O menino tinha fixação em pegadas, caminhos marcados por passos, marcas de solas sobre qualquer superfície. Não conseguia definir a desorientação interior, sentia-se perdido longe de casa. Descendia de João e Maria.


escrito em 13 -10-2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Entre as suicidas

imagem de campanha de prevenção a aids


Estava lá dentro e, assim que se acostumou à penumbra, descobriu muitas, muitas coisas femininas emboladas e, nem sempre a tônica era mulheril. De alguma forma começaram, como de hábito, uma conversa interminável, cruzada e barulhenta sobre as razões de estarem ali, expostas a ruína. Algumas resolveram, já que outras se deprimiam complacentes, revolucionar e reverter suas escolhas. Por quase unanimidade, decidiram que homicídio era muito, mas muito mais criativo e apaixonante. E renasceram pérfidas, mas muito animadas e divertidas!


escrito em 31-10-2009
a partir do e-mail : Escritoras Suicidas | Edição 37 | Com você dentro.

aquele beijo que te dei



Aquele beijo, você o guardou na gaveta, lembra? Acho que nem sabe mais dele, talvez tenha se estragado por que misturado a depósitos bancários e moedas fora de uso. Agora que envelheci, talvez volte a ter alguma validade. Quem sabe depois de minha morte você consiga um bom lance em leilão de objetos não usados!


escrito em 14-10-2009
originalmente para o site 'escritoras suicidas'

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ao mesmo tempo

foto4 do site Bairro das Laranjeiras

Morou na mesma casa desde que nasceu até não mais poder conservá-la. Conhecia todos os seus cantos, cheios de memórias acumuladas ao longo do ser só. Quando passou pela rua e a viu semi demolida, apenas um depósito de plantas e entulhos, quis entrar. Pelos cômodos a céu aberto, encontrou os conhecidos fantasmas e se espantou. Assim como ele, todos estavam muito envelhecidos!


escrito em 16-11-2009

Intervalo

sem título - autor - Izi34


Bastava pegar no sono e lá estava ela naquele mesmo lugar onde só se ouvia o grito das gaivotas e o leve respirar das águas. Passava parte da noite - ou seria toda? - balançando sempre igual, no mesmo ritmo, enquanto cantava muito baixinho para que nada fosse diferente, para não perturbar coisa alguma nem mesmo sabia o que. Embora ficasse cansada sabia que estava viva e que, ao acordar, tudo acabava e só restava o lodo fundo e sem cor onde seu corpo se afogara.


escrito em 12-11-2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Desejo extremo



Seu conceito de beleza incluía, principalmente, pés magros, estreitos e ossudos. Quando engordava um pouco ficava desolada, não importando se o resto da aparência agradava à maioria. Naquele momento sentia-se gloriosa. Que prazer estar em silêncio, deitada naquele ângulo, enxergando perfeitamente os artelhos brancos, rígidos, belíssimos, expostos acima da mortalha. Ainda bem que respeitaram seu desejo de estar descalça.


escrito em 12-10-2009

publicado originalmente na pagina "escritoras suicidas"