terça-feira, 12 de maio de 2009

Filhos da Mãe




Eram quatro. Nasceram durante a guerra e nenhum deles conheceu pai, a mãe era seu sustento. Imaginavam-se fruto de amor intenso nas licenças do soldado. A mãe recebia cartas e as guardava com cuidado na antiga lata de biscoitos. Guerra finda, como o pai não voltasse, se acreditaram órfãos. Escritas por homens diversos, as cartas enalteciam o prazer que a mulher lhes proporcionara em meio aos horrores. Nenhum deles sequer mencionou filhos.

escrito em 12-05-2009

sábado, 9 de maio de 2009

Quem perde ganha



Centro médico à tarde. Elevador cheio. Entra o homem alto, vestido de Batman. A maioria prende o riso. Quando ele sai no oitavo andar os que ficam apostam, quatro contra um: - tem consulta com o Psiquiatra. O ascensorista ganha: - Errado, ele é o psiquiatra!


escrito em 08-05-2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Diário de Ludmila: a partida

Pintura de Eduardo Naranjo



Quando parti o pai desmontou. Ele ganhou rosto e a mulher existiu. Não pude ver, apenas soube. Ao olhar para o álbum de retratos, as fotos amareladas se soltaram, desfeitas. Quem sabe agora, dentro da mãe, tocasse valsa?


escrito em 06-05-2009

Diário de Ludmila:em minha presença

Desnudo de mujer en el espejo - Eduardo Naranjo


Despeço-me de alguns véus, muitas culpas e vários medos. Em minha presença, rendo-me à condição de fêmea e canto, saudando a tia e o despertar de meus instintos. Assim como ela, deixo para trás a casa paterna e o pulso seguro que me fez manter às trancas, a menina que nunca pude ser. Como será minha face refletida em outros horizontes? A curiosidade ansiosa e benfazeja não respeita cautela, parto.


escrito em 06-05-2009

Diário de Ludmila: a tia

tela de Eduardo Naranjo



O sorriso da tia em seu avental de cozinha despertou-me. Embora vivesse entre nós, não se prendia às tramas. Fugia às regras pela independência e atrás do avental branco escondia trunfos. Era necessária e meu pai a enxergava. Embora menina, quieta e tonta, antevia aonde ela iria quando seu cantar me mostrava que a música soltava a alma. Ao nos deixar, a casa toda sucumbiu de inanição, mas eu já havia acordado.

escrito em 06-05-2009

Diário de Ludmila: a mãe

maternidade - Eduardo Naranjo




Lembro-me da mãe tal como neste dia, com meu irmão em seu colo macio e cálido. Era parte da mesma trama que nos prendia e ausentava. Pendente objeto nutridor, o peito exalava azedume e o cansaço a entregava ao dormente abandono. Era assim que se ensurdecia ao canto da mulher que, insepulta em si mesma, entoava um réquiem aos desejos femininos.


escrito em 06-05-2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Diário de Ludmila

duran_eduardo_naranjo


Ao nos ver nas fotos do álbum de família, meu pai é apenas a força sem rosto que me prendia às regras que determinava. Nunca um afago, sempre um pulso firme. Se estava em seu colo era apenas para que registrassem a inutilidade de meu querer e a dura ausência de mim que houve em toda a minha infância.


Escrito em 05-05-2009