domingo, 17 de março de 2013

Atravessar limpo o ar da manhã


Interaction V- gravura Antonio Peticov


Atravessar limpo, o ar da manhã

Por Juan Yanes
  
Era uma loja onde se empenhavam lembranças. Desde o princípio eu sabia o que queria entretanto, para evitar ser brusco, perguntei por um dos objetos que estavam expostos. Era uma recordação que estava colocada no fundo das estantes da esquerda. Podia-se ler o papel timbrado no cartão lacrado em que  sobressaía: J.M.H. 1952. Não sei porque me chamou a atenção. Ah, esse!, disse-me o atendente, é um dos depósitos mais antigos que temos, senhor, certamente sua proprietária faleceu e nunca pode ou não quis recuperá-lo. São memórias de sua infância em Sidi Ifni. Lembranças, provavelmente filtradas pela nostalgia, mas muito belas, eu lhe asseguro. Perguntei-lhe o preço, mas me respondeu com uma amável evasiva. Seu preço está dentro do razoável, me disse. Se estiver interessado basta falar, estou certo que chegaremos a um acordo satisfatório. As lembranças, acrescentou, se deterioram com o tempo, ou pelo menos mudam, você sabe? Estão aqui, aparentemente imóveis, fora da cabeça de seus donos, mas pouco a pouco se transformam, se refinam, poderíamos assim dizer. A mesma coisa acontece com as recordações que temos na memória. Isso lhestambém uma beleza particular, como se fossem vivas destilações do tempo. Interessei-me pelo grupo de recordações que estava perfeitamente ordenado atrás de uma vitrine de cristal, envoltos em papel verde com sua etiqueta correspondente, também lacrada. Refere-se a estes ? Perguntou-me. São alucinações. Não creia que aceitamos todas, imagine! Apenas aquelas que são realmente extraordinárias.
Visões exageradas da realidade, algumas autênticas deformações, quase monstruosas. Não é fácil encontrar gente que se desprenda delas. Os proprietários de alucinações verdadeiramente intensas têm muito apego a este tipo de pensamentos. Para nós tem grande valor e são muito solicitadas. Também os sonhos. Estão justamente ao lado das alucinações,  nesta outra vitrina de cristal. São os dois tipos de lembranças mais valiosos desta casa e os que as pessoas mais apreciam. Temos uma clientela muito seleta de compradores de alucinações e sonhos.

Tive ímpeto de interrompê-lo e explicar-lhe o motivo que me havia levado até ali. Contive-me e assim lhe dei chance de me mostrar a série de recordações que estavam colocadas nas prateleiras em frente. Aqui você tem histórias de amor e desamor. São lembranças sobre o desejo em geral, o que poderíamos chamar, as paixões. Determinados episódios tem, do ponto de vista comercial, uma saída aceitável e despertam certo interesse, mas se for sincero, a maioria são histórias de uma enorme vulgaridade. Olhei as etiquetas. Ali estava grande parte da escala dos comportamentos amorosos. A entomologia do sentimentalismo, pensei.


Pareceu animar-se quando me mostrou um grupo de recordações que se destacava do resto por sua quantidade. Estes, disse apontando as prateleiras superiores, são muito peculiares e também muito apreciados por nossos clientes. São viagens. Viagens aos lugares mais insuspeitados do planeta, lembranças de aventuras cheias de riscos e atribulações. Algumas, autênticos heroísmos, creia-me, realizadas por pessoas comuns. Mas nem todas são façanhas de grande temeridade, é claro. Também existem travessias de enorme placidez e paisagens de grande beleza, eu lhe asseguro. E não apenas a lugares desconhecidos, existem recordações de viagens dentro da própria cidade que surpreendem por sua ternura e complexidade. Deu-me a impressão de que exagerava, ou melhor, realmente gostava de falar das recordações que guardava entre aquelas quatro paredes. Continuou. Também existem paisagens de solidão e de multidão.

Fez o gesto de me convidar a passar para uma sala contígua, para continuar explicando-me o resto da coleção. Não sabia se ele era o proprietário do estabelecimento ou um simples empregado. Sem duvida, era uma pessoa sensível, conhecedora de seu ofício. Explicou-me que tinham uma ampla mostra de recordações sobre conversas, muitas das quais eram verdadeiras jóias, e outra coleção muito extensa sobre a morte. Você deveria vê-las com mais atenção porque abarcam uma gama muito ampla...

Mostrei a ele que o que havíamos visto era suficiente e demos a visita por concluída. Voltou-se, um tanto cerimoniosamente, e me perguntou.  Você me dirá, senhor, o que é que busca exatamente, o que nos oferece e veremos em que medida podemos lhe ajudar.
Aqui tem, no entanto, nosso catálogo onde aparece a totalidade dos depósitos disponíveis, que atualizamos periodicamente. Fora de catálogo temos... Voltei a interrompê-lo, talvez de uma forma um tanto abrupta, e lhe disse: Não quero comprar nada. Você foi muito amável ao explicar-me, com tanto cuidado, o que existe em sua loja. Quero empenhar todas as minhas lembranças. Absolutamente todas. Não me importa o dinheiro que me

Então me respondeu um tanto surpreso, perdendo momentaneamente a compostura: todos, todos, repetiu, aqui não existem lembranças de vidas completas, apenas fragmentos da memória. As pessoas não se desprendem nunca da totalidade de suas recordações, senhor. Você me coloca em uma situação realmente incômoda, deveria pensar muito bem sobre isto. Você perderia sua identidade, não lembraria quem é nem onde vive. Além disso, enquanto dura o depósito estas lembranças são nossas e desaparecem de sua mente. Se alguém as compra, você poderá recuperar seu dinheiro, mas não as recordações... você deve pensar muito bem antes de tomar uma decisão desta natureza. Então eu lhe disse o que realmente pensava desde o início, antes mesmo de por os pés naquela casa de penhores.

Quero começar uma vida sem lembranças. Quero atravessar limpo o ar  da manhã, me entende? Ver as coisas, todas as coisas, pela primeira vez.



Traduzido para o Português em 10-03-2013  por Angela Schnoor.  



2 comentários:

dudv disse...

Lindo!!

Angela disse...

Também achei! fiquei lendo e não crendo no que estava lendo de tão lindo que achei.
origada Dudv!