sábado, 23 de novembro de 2019

AO DESPEDIR DE ALGUÉM QUERIDO




Comungar é fazer algo em comum e comemorar é recordar com felicidade. 
Assim, prefiro sempre lembrar, junto com todos, amigos e família, aqueles que se despediram desta vida.

Penso que, independente de credo ou filosofia, temos certeza de permanecer neste mundo por, ao menos dois motivos: Pelas obras públicas e profissionais que deixamos na Sociedade em que vivemos e pela família que construímos onde, na intimidade e anonimato, semeamos valores que atravessarão os tempos através da cadeia de vida que geramos.

A melhor forma de alcançarmos a eterna lembrança é reviver e recontar nossas histórias. Passando para nossos filhos e netos as memórias dos entes queridos, nós os mantemos vivos mesmo que um dia tornem-se lendas e mitos, pois então farão parte da memória ancestral da humanidade.
Cada pessoa é como um quebra cabeças do qual cada um tem algumas peças. Falemos dela, contemos e recontemos as histórias cheias do entusiasmo daquele que se foi. Sei que haverá muito a dizer e contar e que esta é uma forma de manter sua vida para sempre, na alegria de termos partilhado sua luz.

Angela.
em algum Dezembro 

domingo, 17 de novembro de 2019

ALQUIMIA




ALQUIMIA

Na panela com bastante água, coloque o coração
Acrescente mel
Em fogo baixo, deixe que aqueça até mudar de cor
Em outra terrina, deite todas as mágoas e lágrimas possíveis até quase entornar. O fogo deve ser médio para que sequem totalmente, sem grudar no fundo
Na frigideira, leve a raiva ao fogo alto em um pouco de óleo puro, com uma pitada de sal. Bem tampada, frite-a até que se torne seca e dura como carvão
Assim que esturricar, jogue na lixeira sem perigo de sobrar qualquer farelo
Reponha o coração e não se esqueça de cantar enquanto deixa limpa a cozinha.


sexta-feira, 15 de novembro de 2019

LIBERDADE

LIBERDADE
 
Muito tempo a derrubar paredes
Escapar da prisão era o desejo.
Ao vislumbrar o mar azul saltou. 
Nunca havia nadado.
Se afogou,
livre!
 
15-11-2019


terça-feira, 12 de novembro de 2019

sábado, 9 de novembro de 2019

CARTAS

2 - CARTA DE AMOR

Acordei hoje, com a sua lembrança bem viva. Não apenas, pelo fato de estar desde há uns dias me lembrando de seu aniversário, mas porque tive a sensação de ter passado a noite em sua companhia. 
Assim como na vida, os sonhos são breves, mas podem deixar a impressão de que duram todo o tempo.
Assim é a sua existência na minha.
O sonho me trouxe, como sempre, (tenho um inconsciente camarada!) situações agradáveis e a certezafísica” de que o meu prazer fez um forte vínculo com o seu ser. Não pense que estou parada no tempo e que posso me reportar a você, com o mesmo vínculo amoroso. Isto não ocorre porque entendo a vida como uma editora que, não mantém títulos antigos que são valorizados pela qualidade, mas os atualiza, reedita e lança outros novos.
Acontece que, na minha editora, você é um livro de valor, como um clássico, pois aprendi muito com esta leitura, o que me trouxe um raro prazer.
Na minha alma, o amor tem uma infinidade de possibilidades e encadernações.
Concordo com Thiago de Mello no seu "Estatutos do Homem" quando diz que "a pior dor é não poder dar amor a quem se ama." Pois o amor se rejubila na doação e no prazer do outro. A benevolência que temos, ao tratar com carinho e atenção a quem amamos está na própria raiz da palavra, independente de seu uso corriqueiro. Benevolente é a atitude constante em qualquer tipo de relacionamento no qual exista a intenção e o sentimento de colaborar para a alegria e a realização do outro.
Queria muito e, como queria, ser benevolente com você. Aliás, sou, pois isto independe do Nós. Fica sim, prejudicada, neste querer bem, a amplitude em atos e a satisfação egoísta de ver a felicidade do outro, assim como o sentir menor nossos limites e impotência em relação ao querer alheio. 
Mas, parece que continuo a aprender com você e com a dificuldade quanto à reedição traduzida, revista e, quiçá, aumentada desta benevolência que espero, um dia, não seja via de mão única.
Hoje, especialmente, embora o tempo seja uma ficção, você completa seus cinqüenta anos. 
Emparelhamos-nos, por pouco tempo, vivendo a mesma década.
Espero que, como já disse num recado eletrônico, esta maior idade te seja tão rica e benéfica quanto tem sido para mim. O despojar-se de expectativas, conflitos internos, autocobranças e velhos temores, podem trazer um tipo de liberdade tão interna e profunda que nada abala e, enfim, podemos Ser nossas verdades independentes de censuras ou aprovações externas.
Esta hoje, minha querida, é a manifestação mais verdadeira de minha benevolência por você.  


Em tempo, descobri que hoje comemoram o dia do beijo. Não é interessante? Muitos deles para você neste seu dia.

CARTAS E MENSAGENS

1 - Aos Loucos Varridos


Desde muito cedo percebi que me encaixava na classe dos ET’s. Talvez, por isso mesmo, minha aparência e comportamento externo fossem tão certinhos, discretos e enquadrados. Defesa pura.  As poucas vezes em que ousei sair deste modelo fui etiquetada com rótulos nada aceitáveis para a época. As palavras, as idéias e a forma de viver desde muito cedo ameaçaram o núcleo familiar e social e em troca, muitas dores foram vividas na calada.
Com a maturidade e a independência, descobri que era interpretada erroneamente até por aqueles que viam algo de heróico e pioneiro em minha vida. Nada sabiam do que se passava nos bastidores de minha alma recolhida.
Talvez por isto tudo, os chamados loucos sempre contaram com meu interesse, simpatia e defesa irada. A injustiça do julgamento a priori, a segregação sofrida, os diagnósticos apressados e o sempre desamor permeando as vidas de pessoas incríveis como Camille Claudel, Van Gogh, Santos Dumont, e outras tantas almas singulares que não trilharam os caminhos esperados pela maioria.
Quase sempre estes seres foram cercados e sugados por familiares que tinham os “pés no chão” e que se valeram das genialidades do parente que foi rotulado como louco!
Hoje se fala de inclusão de minorias: dos negros, dos homossexuais e afins, dos isso e aquilo, mas não consigo ver ninguém que se chegue a alguém que desafie as convenções e que seja chamado Louco! Ah! Mentira! Existe sim, uma hipótese: se este louco fizer gênero e tiver dinheiro, pois então será ícone e não só será aceito como imitado e endeusado! E, se for bem de perto, se poderá perceber que é só fachada, que lá no fundo existe o marketing que visa dinheiro e sucesso material. O pobre coitado que ousa desobedecer os padrões e ser diferente porque criativo, porque ele mesmo em sua individualidade ímpar, terá que ser banido, impedido, medicado e drogado através das químicas permitidas e manipuladoras. Então, terá seu diagnóstico estampado para sempre na testa e na alma: desequilibrado, doente mental, maluco e junto, virá o desamor de quem o deseja bonzinho, obediente. Manipulável!
Agora sim ele está melhor! Enquadrou-se, sua criatividade está morta para sempre e a dor, será sempre a mesma, a do abandono, pois esta jamais será compreendida e alcançada pelos medíocres.
Neste compasso segue o coreto dos que afirmam que é para que não sofram, por isto medicam, dão choques elétricos e confinam. São mantidos à distância da sociedade porque envergonham, não enchem de vaidade pais e mães, irmãos, tios e primos. E ninguém os aceita, não são ouvidos, não são tocados, não são amados.
Causa-me desespero, impotência e um profundo desprezo perceber a cautela doentia com que o irmão de Camille, aquele Paul que se disse iluminado, mas que destilava uma manipulação interesseira, manter confinada a irmã que jamais foi louca, apodrecendo num asilo, sem responder suas cartas, pois certamente seu comportamento imprevisível e inaceitável à época, poderia por em risco sua carreira diplomática e de poeta!
Até que Camille morreu e começou a ser considerada uma escultora genial e então o abjeto passou a mencioná-la com o orgulho perfeito para somar ao seu nome. Então se tornou o que sempre foi – apenas o irmão de Camille Claudel- a artista cuja genialidade superou, e muito,
a criação medíocre de Paul.
É absurdo que, em nossos dias, este comportamento se repita e a ignorância continue.
Posso estar completamente equivocada, mas não creio. Os rotulados doentes mentais sofrem sim, mas antes que seus delírios doam pela rejeição e incompreensão, antes que morram pelo desamor e se suicidem pelo desespero de viver à margem da vida, ajude-os a canalizar seus “delírios” para a expressão original. Dêem-lhes ouvidos e instrumentos e teremos gênios criativos e pessoas únicas que poderão amedrontar, mas que serão os arautos das verdades que não temos coragem de ver!

Por Camille e para Ana Paula que saiu de um palco estreito demais, para brilhar em liberdade e plenitude em algum lugar melhor.
 

Em 26-11-2008 

ANGUSTIA