segunda-feira, 9 de março de 2009

Uma outra ceia

imagem de Norman Rockwell


Vinda da grande cidade, Madalena instalou-se confiante no pacato bairro do subúrbio, sem se saber vigiada pela velhota da casa em frente.
Uma tarde, ela recebeu um homem que passou longo tempo na casa. O mesmo aconteceu durante outros dias da semana e, em breve, todos comentavam sobre a adúltera do lugar. No domingo, a igreja encheu para a apresentação do novo pastor. Ao entrar na nave, ela se assustou com os olhares desdenhosos da comunidade. Quando seu marido subiu ao púlpito, os cochichos aumentaram de tal forma que foi necessário pedir silêncio. Findo o sermão, o pastor convidou os fiéis para uma ceia comemorativa, apresentou sua esposa e o famoso cozinheiro que ela trouxera da cidade especialmente para elaborar e preparar a surpresa pelo grande dia.


escrito em 09-03-2009

domingo, 8 de março de 2009

Imagem culta



Concluiu o curso de Letras e queria ser escritora, mas os jargões e a preocupação com as regras a impediam de produzir. Com a maturidade, uma menopausa mental libertou sua imaginação aprisionada.

escrito em 15-06-08

As noites na fazenda


Os corredores da casa eram longos e escuros mas, ao levantar de madrugada ela podia ver as portas dos quartos entreabertas, perceber alguma claridade e ouvir muitos sons. Aliviada, há muito tinha declinado de suas obrigações para com o marido. A filha mais velha, já mocinha, agora o servia. E, em breve, teria o auxílio da irmã mais nova, já pegando corpo e idade para aplacar os instintos animais do coronel.

escrito em 08-03-2009

sábado, 7 de março de 2009

Quem tem amigo...



O marido, policial correto, foi morto num assalto e ela foi trabalhar como vendedora ambulante para sustentar-se e à filha adolescente.A bolsa pesada e os apetrechos da barraca são montados em frente ao prédio onde o porteiro, solidário, guarda as camisetas coloridas. Uma tarde, cumprindo seu dever moral e cívico, policiais apreendem o material exposto e, não satisfeitos, invadem o prédio onde, sob ameaças, levam o que ainda restava. Dia seguinte, corre a notícia do assalto ao carro da polícia. A viatura foi encontrada peneirada e houve distribuição de camisetas às crianças da favela. Sob a porta de sua casa, um gordo envelope permitiu a reposição do estoque 'apreendido'.

escrito em 06-03-2009

terça-feira, 3 de março de 2009

Ganhe tempo

cronos - imagem encontrada pelo google



Na tela, a impressora abre uma caixa onde se lê : este dispositivo pode ser mais rápido, ao procurar qualquer assunto o programa dá uma "dica" : Ganhe tempo teclando Enter ao invés de clicar em "Pesquisar". Assim, a todo instante, ganhava o tempo que prometiam. Clicava, comprava, fazia downloads, atualizava máquinas e seus apetrechos. Armários abarrotados com o tempo ganho, não sabia o que fazer com tudo aquilo. Na pressa em que vivia, não encontrava tempo para aproveitar o que havia economizado.


escrito em 03-03-2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

O carrasco

foto modificada de Aribert Ferdinand Heim, o Doutor Morte

Criança, Erlich Ungerer já se sentia dividido entre forças internas difíceis de conciliar. Este sofrimento levou-o à psiquiatria para ajudar outros enquanto conhecia melhor seu próprio dilema. Um cargo político em tempo de guerra adormeceu sua faceta mais humana. Assumindo-se então como cruel carniceiro, poder e honras embalaram o sono de sua humanidade anestesiada. Banido do país viu, sob dores e culpas atrozes, emergir das brumas da inconsciência a parte delicada e mansa de sua psique. Especializou-se em ajuda humanitária, totalmente dedicada aqueles que, como ele, sofriam culpas e necessitavam perdão. Seus bens foram gastos nesta cruzada e passou anos sendo elevado pelo amor e gratidão dos que recebia de coração aberto, até ser preso e deportado; acusado pelos crimes que cometera.Velho e alquebrado encontrou afinal a integração desejada quando, antes de morrer, matou piedosamente os policiais que o prendiam imbuídos dos mesmos motivos pelos quais o condenavam.


escrito em 1-03-2009

domingo, 1 de março de 2009

Uma pobre mulher

merry IV - autor Wojtek.jpg



Casada, dormia todo o dia e só à noite saía do quarto pronta para as melhores festas, restaurantes e espetáculos da cidade. O marido, embora exausto, satisfazia todas as suas vontades. Quando passou por um revés financeiro, ela pediu divórcio. Alegando que nunca pôde estudar ou trabalhar, exigiu bens e uma alta pensão que alimenta seus antigos hábitos. O homem, culpado pelo fracasso, definha a olhos vistos atormentado por cobranças e ameaças judiciais. Embora considerada uma pobre mulher, vítima da tirania masculina, conserva-se jovem e bela. Fato desconhecido é que ela mantém esta prática há quase dois séculos.


Escrito em 29-02-2009