sábado, 23 de agosto de 2008

Parto

Underwater Study #2747 howardschltz



Em plena crise amorosa, tinham ganas assassinas. A noite ia alta. Agarrados, agredindo-se, acabaram por cair no lago e, sob a água, amaram-se com violência. Emergiram, exaustos e ensangüentados, para uma relação ressuscitada.



escrito em 4-09-07-
Postado em IDEÁLIA a 9/07/2007

Praias e abismos impensados

O tsunami de 26-12-2004




Quando criança sentia-me como mar: Calma, serena e silenciosa, embora abrigasse, nas entranhas, monstros e tubarões famintos, ondas bravias e toda sorte de movimentos perigosos.


Minha mãe se acreditava minha única praia e tentava exibir-me ao mundo, espelho de seus desejos. Às vezes, percebia que ela pensava que eu poderia ser um lago, onde se admirava...


Desagradada e temendo todos os avanços, recolhi as águas e consegui retê-las por muito tempo, embora minha pele exsudasse o sal e as durezas, como conchas e corais, ficassem expostas, para desencanto de minha criadora.


Ah! Lembro-me que sempre detestei o barulho insano dos praianos, aquelas vozes a dizer tolices à volta, enquanto invadiam minhas águas, poluindo-as.


Até que não foi mais possível impedir a força dos maremotos. Acho que alguém jamais se acreditou causa ou estopim de tantas desgraças...



Escrito por Angela em 15-04-2007 - 0h27’
Postado em
IDEÁLIA a 4/18/2007

O Conde

conde Drácula em fernandoparreira.blogs.sapo.pt



Para ostentar singularidade mandou pendurar na entrada de seu castelo um espelho imenso! Jamais entrava por ali. Cultivava a imagem rebelde, e escondia o pavor de descobrir-se sem reflexo!

re-escrito em agosto 2008

O jogo da Amarelinha

amarelinha-(macaca pt)imagem cedida por J.G-do zoobizarro




Não conseguia chegar ao céu. Quando a pedrinha parava no numero quatro, a menina via um imenso túnel que parecia querer sugá-la.Coração aos pulos, continuava o jogo para que as amigas nada percebessem. Passou a brincar na casa da vizinha, mas os retângulos continuaram no jardim até que, ali, foi aberto um novo canteiro.Sob a terra revolvida jazia um corpo de criança.




escrito em 3-09-07

Postado em IDEÁLIA a 9/05/2007

Velhos hábitos


A senhora idosa mantinha-se viva apesar das tantas misérias e desgraças. Na parede da sala, o grande tapete onde tecera suas dores sustentava-se pela sujeira entranhada na trama desbotada.A luz do sol projetou-se na parede atapetada no dia em que uma notícia alegre iluminou a vida da megera. E ambos sucumbiram, destroçados.



Postado em IDEÁLIA a 7/19/2007

Moto contínuo.

combustão - desenho de Angela Schnoor


A nave seguia rumo ao novo planeta. Ele fazia parte do terceiro grupo a deixar a ressequida Terra. Ao aportar no novo solo verdejante, viu o garoto destruindo um jardim e teve certeza da inutilidade da missão.



Postado em IDEÁLIA a 3/03/2007

Seria loucura?


Aquele fora um dia especial, muito especial!
Primeiro, perdera sua carteira de identidade. Procurara na bolsa, nas gavetas e, nada!
Mal começava o dia e, ao se ver diante do espelho, olhava pra si de fora de seu corpo. O sentimento de estranheza inundava a alma.Se parecia à “outra”, aquela que lhe atormentava a vida, inquilina de seu corpo há anos!
Afinal, conseguiu sair à rua. Era verão e o dia quente e pesado anunciava chuva. Só não podia imaginar que, de repente, o céu ficasse anoitecido e as águas encharcassem a cidade.
Leve, o vestido branco grudou em seu corpo e viu-se, de repente, nua, exposta, transparente!Onde tentava abrigo, todos os pares de olhos vivos a decifravam.
Foi então que Ela veio e tomou conta de tudo!
O temor imenso aflorava e colava à alma, tal qual o vestido ao corpo! Pesada como chumbo, aquela velha culpa grudava e derrubava a ela que se sabia, enquanto a outra transparecia junto ao corpo nu.
Sim! Havia sido derrotada e agora não se via mais, de fora, refletida nas poças e nas vidraças embaçadas.
Ela era toda a outra, a que precisava, logo que a chuva parasse, registrar uma nova identidade
.


Escrito por Angela em 13 de maio 2007-

Postado em IDEÁLIA a 5/14/2007