segunda-feira, 11 de julho de 2011

As penas da história

Caïn após matar seu irmão Abel - Vidal, Henri - Marbre, 1896 - Jardin des Tulheries
Foto de Anna Schnoor


Enquanto sofria, arrependido, Cain ganhava fama e simpatia. - Pobre Cain, diziam. Castigado pelo pai.

Em outro plano, Abel pensava - Eu não deveria ter morrido, fiz meu irmão sofrer, bajulei o pai para que me preferisse e estou liberto, enquanto ele ficará para sempre amarrado à história como o invejoso cruel.

escrito em 28-06-2011

domingo, 10 de julho de 2011

Surpresa!



Chegou pé ante pé por detrás da poltrona, cobriu os olhos dele com suas mãos e fez a pergunta: - Sabe quem é?

Sob seus dedos, o rosto duro e gélido, devolveu-lhe a surpresa.


escrito em 09-07-2011

sábado, 9 de julho de 2011

Super abrigo



Quando a mãe viu os garotos prontos a saltar das alturas vestidos de super-heróis, gelou e gritou. Sem ouvir bem as palavras e temendo a surra, pularam mais que depressa para fugir do castigo. Para espanto geral, alçaram vôo direto até pousar na casa dos avós.


escrito em 06-07-2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Uma nova estação



Tarde fria de Inverno. Na calçada, o toc-toc dos sapatos pesados ressoam no ritmo apressado de chegar. Um homem e uma mulher entram em casas que não são suas, despem as roupas, largam as pastas de trabalho, e só se dão conta de que começam uma vida nova pela alegria do encontro. Longe das rotinas e das rusgas cansadas do tempo, a refeição é prazenteira e nem a TV é ligada. Uma boa taça de vinho e novos lençóis acolhem corpos ardentes e o sono embala o desejo de que o dia amanheça verão.



escrito em 05-07-2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Alma



Então ela foi se largando, se soltando e se deixou cair. Mas flutuou, ficou ali feita de ar e luz. Há muito tempo já não era deste mundo.

escrito em 04-06-2011

sábado, 2 de julho de 2011

A manta de família,




A manta de família,

guardada há anos, precisava ser lavada. Sob a água, a franja embaraçou. Ao tentar desfazer a trama, lembrou-se das moiras e foi separando fio por fio, pensando repetidamente, como em um mantra, que à cada nó desfeito, cada herança recebida seria dissolvida e o passado limpo. Ao terminar, manta seca, fios soltos, memória perdida.

escrito em 27-06- 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Espelhos

Magritte - Le Principe du Plaisir- 1937


Pela manhã um homem se olha ao espelho e ao chegar à mesa do café, em frente à sua mulher, torna-se outro. Ao sair de casa, solitário, por instantes volta a ser ele mesmo até que, ao encontrar o vizinho, torna-se outro mais. Chegando ao escritório, muda tantas vezes que precisa entrar no toalete para ver-se novamente e se recompor. Antes de voltar a casa, visita sua amante e então é todos em si mesmo e quase se perde entre os lençóis, pois para isto é que foi feito; para amar e ser amado.


escrito em 29-06-2011