domingo, 17 de agosto de 2008

Quase uma criança

interferências sobre foto de push-pin


Ao entrar no banheiro, a moça que saía chamou sua atenção. Quase uma criança, extremamente pálida, parecia estar muito mal. Na cabine, o forte cheiro de sangue causa-lhe enjôo.
-Pobre menina, deve estar muito menstruada. Ao puxar o papel higiênico, a engrenagem do tambor emperra. Paredes e chão tingem-se de vermelho. Chama a zeladora. Ao retirar a tampa do aparelho, imprensados entre as voltas da bobina de papel, pedaços de um feto.



Escrito em 10-08-08 - 00h40’

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Invasão Pacífica

imagem encontrada no google



Um bando de rapazes em plena pujança procriadora se propôs conquistar o território de um país próximo. Chegaram juntos procurando nativas jovens e férteis. De tempos em tempos, novos grupos chegavam e, sem alarde, espalharam seus traços, idioma e hábitos pelas cidades. Nas maternidades e escolas os bebes atestavam os genes da nova colônia.


escrito em 14-08-2008

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Crimes domésticos

acordar para o mundo - grENDel


A mãe sempre trabalhou para sustentá-lo. Tímido e solitário, na infância brincava com o gato. Na adolescência começou a ler e passou a viver através dos personagens, a identidade de cada um tomava conta de seu corpo. O coração acelerava com as emoções deles; quando comiam tinha fome e seus atos corriqueiros eram copiados à risca. A tragédia que lia no momento começou a amedrontá-lo. Já tinha tentado largar o livro e, aflito, o escondia de si mesmo. Afinal, não resistiu e voltou à leitura. Primeiro matou o gato. Hoje, a mãe.


Escrito em 12-08-08-03h05'

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Um doce vôo

pássaros do sul - olhares.com



Sempre quis ser pássaro, gostava da leveza deles.
Estava com um alto grau de glicose na circulação e então, já perto do fim, pedia ao enfermeiro que colhesse um pouco de seu sangue e misturasse com a água do pote onde os passarinhos vinham beber. Esperava em frente à janela. A cada um que bebia, era como se vivesse neles, leve e solta em cada vôo.

escrito em 06-08-08 23h40’

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O menino

foto recebida por e-mail



Algumas vezes o menino tremia muito, mas depois sossegava e dormia tranqüilo. Os médicos chamavam aquilo de um nome difícil e queriam medicá-lo, mas ela não se importava porque o seu pequeno dizia: - Sabe, mãe? Dentro de minha cabeça é como quando chove. Tem raios de luz e trovões, depois passa e eu vôo para um espaço grande e lindo onde encontro o vovô.
Ela sabia que até ele tornar-se adulto talvez já compreendessem tudo de um outro jeito.

escrito em 06-08-2008 - 23h32'

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Acerto de contas - Homenagem a Camille Claudel

language_of_light_Diane Warner




Ela, mulher sensível e dotada de talento especial para a arte, sentia-se perdida e, até o encontrar, não conseguira realizar nenhum de seus projetos.
O jovem aprendiz, avidamente, tornava real e belo tudo o que ela imaginava. Obcecado, tornou-se escravo daquela mulher que passou a usurpar toda obra que ele produzia, conseguindo para si, fama e poder.
Prisioneiro, até o fim da vida submeteu-se ao prazer cruel com que ela o rejeitava e humilhava.
O estranho, entretanto, é que ele parecia aceitar como coisa justa, aquele jugo. Chamavam-se Camila e Augusto.




escrito em 2-08-2009 03h01'

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Desejos - Ar Livre

gruta do Maquiné - MG - Brasil - imagem da web


A primeira vez foi na viagem às grutas de Maquiné.
Enquanto todos se encantavam, ela sufocava. Só voltou a se sentir bem quando correu para fora e, aliviada, respirou.
Anos mais tarde, tudo ficou claro. Seu nascimento fora um milagre. Quase tinha morrido no útero materno.

escrito para Minguante agosto em 16-06-08

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