quinta-feira, 1 de maio de 2008

A Avó

Velha senhora a ler-Rembrandt




Caminhava com dificuldade, oprimida pela umidade do ar. O dia estava tenso e o céu cinzento parecia imprensá-la sobre a Terra. Andou entre as folhas do livro onde os ratinhos contavam sua história, ali estava fresco e o ar corria suave. Em breve, a última página seria fechada, mas ela permaneceria leve, para sempre, na memória do menino.


Escrito em 22 de abril de 2008
Para o Henrique.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Fios

sem título - foto de - alrune


Presa nas brumas da infância, escrava do porão úmido da memória, ela se perguntava se o fio que pendia daquela teia azul, triste e suja, serviria como trapézio ou forca.


escrito em 27-04-2008 - 18h19'

domingo, 27 de abril de 2008

Prisão

enterrada viva -foto da web


Prisioneira do terror que a possuiu desde o dia em que foi agredida, a menina só aceitava a companhia de seu ursinho ao qual se agarrava. Tensa e triste, mantinha a seu lado um facão para usar em sua defesa. Ainda não tinha consciência de estar liberta. Há dias, estava morta.

escrito em 27-04-2008

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Silêncios e lágrimas

Waiting - Autor- Naat

Àquela hora tardia, o lugar estava calmo e vazio. A chuva tinha feito o necessário para que os silêncios pudessem ocupar o lugar e conversar às lágrimas partilhadas. Sobre as mesas, despidas do bulício da freguesia costumeira, foram servidos, pouco a pouco, todos os sentimentos vividos e presenciados ao longo de muito tempo. O final da tarde e a noite foram muito especiais, inesquecíveis poder-se ia dizer e, ao raiar do dia, até o sol sentiu-se inibido e não apareceu.

Escrito em 20-04-2008 02h22'

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Antes que


Ela foi até ali e voltou rapidamente. Na esquina, seu reflexo a esperava na vidraça da sorveteria. Olhou, gostou, percebeu que a alma pedia carona naquela imagem leve e gentil, mas um pequeno traço no canto do olho esquerdo deu-lhe o sinal da precariedade de sua harmonia. Ouviu uma gargalhada sonora, a buzina forte e o som estridente da freada e do baque surdo. Voltou correndo. Precisava entrar em casa e, em seu espelho, retocar o canto do olho esquerdo para que a alma estivesse de acordo com seu resto. Pois tudo era resto. E seria ainda mais, quando o baque fosse o som de seu corpo desistindo de vez.


Escrito em 19-04-2008

sábado, 19 de abril de 2008

Ampulhetas

ampulheta de diamantes - imagem da web



Menino do campo, via o tempo passar olhando a luz caída no horizonte. Descobriu o relógio de areia e o brilho do sol, refletido nos grãos irisados, o relaxava das tensões escolares. Sobre a mesa de trabalho, em cristal e ouro, a ampulheta escorre milhares de diamantes por segundo. O poder roubou-lhe o brilho do tempo.

escrito em 12-03-2008

terça-feira, 15 de abril de 2008

Sem travessias

Caronte e psique por John Roddam Spencer Stanhope 1829-1908





Caronte andava exausto! Há séculos remava pra lá e pra cá, o mundo crescia e os mortos também. Pediu em vão a Poseidon o afundamento de um novo continente, o que o libertaria de muito trabalho. Chegou a alugar um transatlântico, mas as hecatombes e epidemias geravam passageiros aos milhares. O dinheiro corria solto e o óbolo não era mais problema. Fez um trato com Hefestos e inauguraram os crematórios.





escrito em 07-04-2008