quarta-feira, 8 de abril de 2015

Engano de porta.


Em uma manhã encontrou o primeiro bilhete na caixa do correio. 
Letras bem feitas e impessoais diziam: - Não tardo.
E assim foram os demais: - estou chegando, me aguarde, logo estarei aqui ...
Intrigada, passava os dias tensa, esperando, sentindo-se ameaçada. Já não dormia nem saía de casa.
Aos trinta dias, seu único vizinho faleceu após chegar aquele que seria o último recado: - Eu avisei!
O jovem viveu alegre seus últimos dias enquanto ela, entregue ao medo, perdia um mês de sua vida, .
 

em 30-03-2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A solidão e o vazio




Nas panelas, comida feita para dois. Toda noite, após ter jantado, arrumava a mesa com cuidado, prato cheio ao centro e se recolhia ao sono. Pela manhã, o prato vazio era lavado e a mesa desfeita.
 

Em 29-03-2015

demolição


Velvet Portrait Suite 7- Jane Burton
 

Na varanda da casa, debruçada em escombros, os jardins e a moça. Visível pranto escorria dela enquanto as máquinas demoliam o pouco que restava. Toda uma vida desperdiçada parecia terminar ali, mas a morte nunca se desfez das memórias.
 

28-03-2015

domingo, 1 de março de 2015

Tristeza



double exposure


Sua casa era clara, ensolarada o ano todo. Mas dentro dela só havia inverno.
 

em 01-03-2015

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Anônimo

 o som do silêncio


Em alguns momentos estranho meu nome. Antropônimo, nome próprio? Próprio de quem? Por que haveria de me identificar com uma palavra que me impuseram e com a qual as pessoas me chamam ao longo da vida. 
Não sou isso, não me sinto este nome, esta palavra que me soa estranha, invasora e manipuladora de minha identidade. Me pergunto, então,  como gostaria de ser chamado e a resposta que me chega, do mais fundo em mim é palavra alguma, nome nenhum, apenas silêncio.
 
em 14-02-2015

 

o bolo salvador






Algumas vezes o casal de idosos encomendava um bolo à vizinha, para ser entregue em casa. Naquela manhã a doceira telefonou, como combinado, mas não foi atendida.
Há dias não via a mulher na vizinhança e o pedido havia sido feito pelo marido, o sabor preferido da velha senhora.
Temendo incomodar, a moça tocou a campainha muitas vezes. A demora quase a intimidou, mas precisava cumprir sua palavra. Quando o homem abriu a porta com relutância, ela, acostumada a odores agradáveis, sentiu um cheiro fétido vindo do apartamento. Sem pensar, num átimo, empurrou a porta e adentrou a sala onde a criatura, já putrefata, sentada na poltrona, estava cercada de guloseimas por todo o lado.
Com voz fraca e tremida, o velho disse: já fiz de tudo para que ela ficasse forte e se recuperasse.  
 

em 15-02-2015

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A mágica do verbo

Vyšehrad Cemetery, Prague


Durante anos o velho sentia fraqueza e dores. Pedia ajuda com a vergonha dos que se acostumaram a servir e a ser fortes.
Amigos e familiares ouviam complacentes, mas logo voltavam a lhe solicitar atenção e comportamentos habituais.
Quando o diagnóstico foi feito e uma simples palavra adentrou a vida familiar, em segundos todos se fizeram presentes  pranteando a futura morte anunciada.
 

em 13-02-2015