ficha do Dops
Identidade
A
repressão continuava,
embora sem
aparência brutal. De
um dia
para outro
suas mensagens foram
devolvidas, seu perfil
nas redes sociais
apagado; tentou
correio convencional e
as cartas voltavam. Os
vizinhos não
respondiam aos cumprimentos e a
venda do bairro
cancelou seu fiado.
Pior quando
sua matrícula no
mestrado foi negada
por não reconhecerem
seus documentos:
Foto e
assinatura incompatíveis.
A escola onde dava
aulas estava fechada e a
secretária não o
reconheceu. Deu seu
nome a um
aluno, e ao perguntar se o
conhecia ouviu outra
negativa.
Solicitados,
novos documentos seguiam
negados sistematicamente. Durante
anos tentou concursos
em todo
tipo de empresa
sem obter
sequer inscrição.
Abatido,
conseguiu ocupação
como faxineiro de uma
mansão bem
longe de casa.
Em pouco
tempo a excelência de
seu serviço o promoveu a
copeiro. Pela proteção
da antiga cozinheira,
foi convocado a servir na
recepção a figuras
ilustres. Foi então
que percebeu, no olhar
diferente de um
conviva, a luz da
familiaridade. Naquela
noite, em
fuga, dormiu nas ruas.
De volta a
casa, ao vê-lo, o
porteiro apanhou o
interfone e se ausentou.
Porta trancada, campainha
muda. Voltou à rua e
dormiu sob o viaduto
na companhia de um
cão vadio. Sentia-se
perseguido, vigiado e assustado com os
efeitos do medo
sobre sua
mente fragilizada.
No centro da
cidade, em
um velho e decaído
hotel, sob
nome inventado,
conseguiu quarto. A cachaça matou
a dor da fome.
Antes de dormir encontrou uma
arma, coisa
estranha, na gaveta da
cabeceira. Deitou com
ela na mão. Na
madrugada acordou para
urinar. Ao olhar o
espelho sobre a
pia, deu com
um rosto
suspeito, estranho e
perigoso. Sem
pensar, atirou.
Quando a
polícia chegou, o
gerente do hotel,
pela colaboração e
pela arma, recebeu
seu pagamento.
Nos jornais
matinais, aquele
nome negado há anos,
aparecia em destaque
como perigoso
subversivo
foragido.
escrito em 18-08-2012